Se o leitor preferir, pode seguir para o artigo do Edson da Cunha Mahfuz ou continuar lendo minha opinião abaixo.
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É com muita satisfação que inicio esta série de posts com este texto abaixo. E o tema não poderia ser melhor: CRIATIVIDADE. Terminho complicado e explicado com algumas boas nuances no artigo. Apesar das críticas aos excessos de criatividade sem o profundo conhecimento acadêmico e de vida de certos profissionais de sua área, se mudarmos o termo "arquitetura" para outro ligado a criação, tipo design quaisquer, grafite, moda (etc), encontraremos profissionais no nível do criticado na fala do Edson Mahfuz.
O texto tem seu fundamento, e não sou tão crítico em relação a este tipo de profissional criticado com tanto terror textual. A bem da verdade, fazer do mundo uma grande Dubai não me choca tanto, até gostaria de ver espalhados planeta adentro muitos projetos com seu nível arquitetônico de criatividade, mas sei bem que isso poderia trazer mais malefício do que benefício. Que esta cidade hoje no meio do deserto é um orgasmo arquitetônico, ninguém pode negar, dizer que ela é uma Disney Buildings de endinheirados, isso já é de cada um.
Ainda sonho em ver minha querida cidade Vitória/ES com muitos prédios modernos. Alguns estão quase prontos (e de gosto duvidosos), outros só no papel. E a pergunta que não calará tão cedo: Será que o Mirai Urban Life deixará de ser uma miragem capixaba? Espero que sim.
No Espírito Santo a região que mais tem construções com ares modernos é a Enseada do Suá. A Praia da Costa (Vila Velha) tem alguns interessante. No geral, seguem uma estrutura mais clássica de arquitetura. Uma "porrada de projetos" carecem de mais ousadia criativa isso é vero. Fazer bem Arquitetura não é só saber levantar edificações com maestria.
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Existe grande confusão a respeito do que seria criatividade em arquitetura. Tal fato não seria preocupante se não tivesse tantos efeitos nocivos para a prática da arquitetura. Por um lado, uma noção equivocada por parte dos leigos leva a uma demanda por objetos com os quais a arquitetura não deveria se envolver. Por outro, basear uma prática sobre uma noção errada de criatividade significa produzir arquiteturas irrelevantes, na melhor das hipóteses.
Criatividade, segundo o dicionário Aurélio (1ª edição), significa qualidade de criador. Criador é quem cria, e criar é dar existência a algo, tirar algo do nada; dar origem; produzir, inventar, imaginar. O dicionário já indica que o termo não designa uma qualidade especial que distingue um criador dos outros. O próprio ato de criar algo já é indicação de criatividade.
Para leigos (usuários em geral, clientes, imprensa não especializada), estudantes de primeiros anos e até muitos arquitetos, criatividade é algo ligado ao imprevisto, ao insólito, ao surpreendente, cuja obtenção é dependente de um talento superior inato 1. Daí a existência e os elogios conferidos a edifícios de aparência estranha, cuja lógica é muito difícil de entender. Parece haver uma correlação entre criatividade e variedade, movimento, impacto visual, e outras categorias que levam ao estranhamento. Vista desse ponto de vista, a simplicidade e a elementaridade são sinonimos de monotonia e falta de criatividade.
Existem experts em "criatividade" que sugerem todos os tipos de origens para a forma arquitetônica: em alguns círculos é considerado criativo transformar um cinzeiro ou um croissant num edifício. Outros desenvolvem oficinas de sensibilização visando "soltar" a criatividade de estudantes e arquitetos, aparentemente reprimida por uma vida tão preocupada em encontrar soluções para os problemas quotidianos.
Nenhuma dessas pessoas chega realmente a entender o que significa a criatividade em arquitetura. A consequência mais importante e danosa do ponto de vista dominante é que a forma é vista como algo independente, como algo que se acrescenta aos aspectos especificamente arquitetônicos de qualquer problema. A mesma confusão envolve o entendimento do componente artístico da arquitetura, que para muitos é algo externo ao processo projetual.
Como uma aproximação a uma definição mais precisa da criatividade arquitetônica, proponho que o seu significado é diferente do sentido comum e do sentido que tem para as artes plásticas, para a publicidade, para a moda, etc. Toda atividade criativa é essencialmente solução de problemas. O que divide as atividades criativas em pelo menos duas categorias é a existência, para algumas, de problemas auto-impingidos, consciente ou inconscientemente, como nas artes plásticas, enquanto outras como a arquitetura estão relacionados à problemas externos à disciplina, que podem ser mais ou menos restritivos à liberdade do autor.
Em outras palavras, a criatividade só existe, só se exprime, face a um problema real. Simplesmente não há criatividade sem problema referente. Assim, o criativo (ou o artístico) em arquitetura se revela como um modo superior de resolver, através da forma, os problemas práticos que definem um dado problema arquitetônico.
Se o problema da publicidade é persuadir e o da moda é dar forma ao vestir, qual seria o problema da arquitetura? O que estabelece que a criatividade em arquitetura seja algo específico são várias questões: o uso, o custo elevado e a permanência dos edifícios.
A questão do uso parece óbvia. Sem programa não há arquitetura; no máximo alguma escultura em cujo interior se pode caminhar. O uso/ programa indica que necessidade da sociedade precisa de espacialização; sua extrapolação nos leva perigosamente próximos da irrelevância e da irresponsabilidade. Todo programa deriva de um cultura específica, que deve ser o pano de fundo de qualquer realização arquitetônica.
A escassez de recursos na América Latina nos obriga a fazer muito com o pouco de que dispomos. Qualquer solução "criativa" -no sentido de elementos não justificados por uma rigorosa lógica de projeto- significará maiores custos sem garantia de aumento de qualidade.
E quando falamos em permanência nos referimos não apenas à durabilidade do edifício, dependente da construção correta, mas também da sua capacidade de se contrapor ao caos visual da cidade contemporânea.
O raciocínio desenvolvido até aqui quer indicar que não há nada de criativo em projetar e construir objetos de forma inusitada, empregando geometrias complicadas e caracterizados por diagonais, pontas e outras complicações formais, principalmente porque os recursos citados não respondem a nenhum problema real.
Pelo mesmo motivo não há a menor criatividade em empregar estilos históricos para edifícios contemporâneos, como é a presente moda no Brasil. Pelo contrário, isso só demonstra como são limitados e pouco criativos tanto promotores quanto criadores dessa espécie bastarda de arquitetura.
A verdadeira criatividade em arquitetura reside em resolver seus problemas específicos por meio da síntese formal do programa, do lugar e da técnica, resultando em objetos dotados de identidade formal intensa, a qual deriva do emprego de critérios tais como a economia de meios, o rigor, a precisão, a universalidade e a sistematicidade.
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